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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O Oscar reflete a diversidade da população dos EUA?

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Image captionIndicados nas categorias de atuação; ausência de diversidade racial despertou críticas
Antes mesmo do início da cerimônia de entrega do Oscar, na noite deste domingo, uma coisa já era certa: os vencedores de todas as categorias de atuação da 88ª edição do Oscar seriam brancos.
Isso porque, pelo segundo ano consecutivo, todos os indicados a Melhor Ator, Atriz, Ator Coadjuvante e Atriz Coadjuvante eram brancos.
Os prêmios acabaram ficando com Leonardo DiCaprio (O Regresso), Brie Larson (O Quarto de Jack), Mark Rylance (Ponte dos Espiões) e Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa), respectivamente. Alejandro González Iñárritu ficou com o prêmio de melhor direção por O Regresso, e Spotlight levou a estatueta de melhor filme.
Mas o fato de todos os indicados em atuação serem brancos foi motivo de controvérsia desde a divulgação da lista de concorrentes ao principal prêmio do cinema mundial.
Há muitas críticas sobre o fato de nomes como Michael B. Jordan, do bem-sucedido blockbuster Creed – Nascido para Brilhar, Idris Elba, que interpreta um carismático líder militar no filme sobre crianças-soldados Beasts of No Nation, da Netflix, e Will Smith, que estrela o longa Um Homem Entre Gigantes, só para citar alguns exemplos, tenham sido ignorados pela Academia.
Esses críticos apontam a composição do grupo de votantes como uma possível razão para a falta de reconhecimento das interpretações de atores e atrizes negros.
Dos 6 mil membros habilitados a votar, 94% são brancos.
A polêmica levou nomes importantes do showbiz – entre eles o cineasta Spike Lee e a atriz Jada Pinkett Smith (mulher de Will Smith) – a anunciarem um boicote à premiação deste domingo.
Além disso, uma campanha nas redes sociais reclama dessa falta de diversidade nas nomeações usando a hashtag #OscarsStillSoWhite (“#OscarsAindaTãoBrancos”, em tradução literal), reconstruindo a #OscarsSoWhite (“OscarsTãoBrancos”) popularizada no ano passado.
Será, porém, que essa é uma crítica justa? No passar dos anos, quanto o Oscar tem refletido da diversidade racial americana? Trata-se de uma premiação racista? Ou será que apenas reflete a composição da indústria cinematográfica?
Image copyrightNetflix
Image captionIdris Elba em 'Beasts of no Nation'; ator foi considerado 'ignorado' pela Academia
A Universidade do Sul da Califórnia divulga anualmente um estudo que reflete a diversidade étnica e de gênero no cinema americano e no Oscar.
Para isso, o estudo analisa a proporção de atores, diretores e outros profissionais de diferentes origens étnicas. Com a série histórica de 2006 a 2013, é possível ter um retrato de quão Hollywood têm refletido, ao menos neste século, essa diversidade.
Os resultados talvez sejam surpreendentes.

Latinos e asiáticos sub-representados

Atores negros estão, em média, levemente sub-representados no cinema dos Estados Unidos.
Uma análise dos prêmios já concedidos pelo Oscar desde 2000 mostra que pouco mais de 9% das indicações foram para eles, que hoje representam 12,6% da população americana, segundo o Census Bureau.
É certamente verdade que atores brancos estão super-representados quando o assunto são as indicações – o grupo que corresponde a 62% da população recebeu 88% das vagas nas disputas desde 2000, e 95% em todo o século passado. Mas não necessariamente isso ocorre às custas dos colegas de trabalho negros.
O fato é que a população latina é que é dramaticamente sub-representada na indústria cinematográfica.
Embora diretores como Alfonson Cuarón (vencedor por Gravidade) e Alejandro González Iñárritu (que levou o Oscar por O Regresso e também venceu comBirdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância no ano passado) tenham sido premiados recentemente, latinos foram indicados a prêmios de atuação apenas sete vezes – 2% do total de vagas – desde 2000, embora esse grupo corresponda a 17% da população dos Estados Unidos, segundo os dados oficiais.
O dado não inclui atores espanhóis, como Javier Bardem (indicado três vezes) e Penelope Cruz (duas).
Image copyrightGetty
Image captionAlejandro González Iñarritu ganhou novamente como diretor, mas latinos são sub-representados na festa
Nenhum ator latino ganha um Oscar desde 2000, quando Benicio del Toro levou uma estatueta (se desconsiderarmos a queniana Lupita Nyong’o, nascida no México, vencedora em 2014 por 12 Anos de Escravidão).
Isso talvez ocorra porque apenas 5,8% de todos as papéis com falas foram destinados a atores latinos, segundo o estudo da Universidade do Sul da Califórnia, que analisou 109 filmes lançados pelos maiores estúdios em 2014.
Americanos de origem asiática têm um destino parecido. Segundo o Census Bureau, eles são 5% da população, mas mais da metade dos principais lançamentos de Hollywood no ano passado não tem personagens com falas asiáticos ou americanos com essa origem, aponta o estudo da universidade.

A questão do gênero

Mas há ainda outro grupo que talvez esteja ainda em maior desvantagem que os latinos e os asiáticos.
E talvez isso seja ainda mais surpreendente, uma vez que não se trata de uma minoria que está nessa situação, mas sim a maioria.
Mulheres são hoje por volta de 51% da população dos Estados Unidos, mas conseguiram apenas cerca de 30% dos papéis nos principais longas lançados por Hollywood, segundo o estudo da Universidade do Sul da Califórnia, que analisou os 600 filmes com melhor bilheteria entre os anos de 2007 e 2013.
Image copyrightVALERIE MACON AFP
Image captionMulheres também são preteridas em papéis principais - mais uma distorção de Hollywood

Polícia é cobrada pela própria sociedade para agir com violência, diz secretária nacional de Segurança

Image copyrightMarcelo Camargo Agencia Brasil
Image captionSob forte presença da polícia, manifestantes protestam em Brasília em junho de 2014 contra gastos com a Copa do Mundo; sociedade se divide entre crítica e apoio à violência policial, avalia secretária.
No Brasil, a mesma sociedade que pede o fim da Polícia Militar em manifestações, alarmada pelos índices de violência policial, acha que "bandido bom é bandido morto".
Para a secretária nacional de Segurança Pública, Regina de Luca Miki, tal "distorção" explica a relação conturbada do brasileiro com as instituições que devem protegê-lo.
"A relação (entre Polícia Militar e sociedade) se perde lá atrás. É uma polícia formada pela ditadura, que vem buscando seu caminho hoje, mas por outro lado é cobrada pela própria sociedade para que aja com violência, daí fica uma distorção", afirmou a secretária em entrevista à BBC Brasil durante visita a Londres.
Segundo os dados mais recentes disponíveis, uma pessoa é morta pela polícia no Brasil a cada três horas. Foram 3.009 mortes em 2014, aumento de 37% em relação ao ano anterior. E 398 policiais foram mortos naquele ano, ao menos um por dia.
Nos EUA, por exemplo, país com número muito superior de armas de fogo em circulação e com população 60% maior do que a brasileira, o total de civis mortos pela polícia em 2012 foi de 410, ante 1.890 no Brasil no mesmo período.
A preocupação com a violência na ação policial se reflete nas ruas. Ao menos desde 2013, gritos de guerra pedindo o fim da PM são comuns em protestos pelo país, seja em atos contra a especulação imobiliária no Recife, em solidariedade aos professores em Curitiba ou pela revogação do aumento das passagens em São Paulo.
Por outro lado, metade da população das grandes cidades brasileiras acredita que "bandido bom é bandido morto", como mostrou pesquisa Datafolha em julho de 2015. Ao todo, 50% dos entrevistados disseram concordar com a afirmação, 45% discordaram e o restante não respondeu ou não concorda nem discorda.
Image copyrightTomaz Silva Agencia Brasil
Image captionManifestantes protestam em abril de 2015 contra violência policial em favelas do Rio de Janeiro; país teve mais de 3 mil mortes por policiais em 2014.
No cargo desde 2011 e conhecida pelo período em que comandou a segurança em Diadema (SP) e a cidade reduziu sua taxa de homicídios em 78% (de 2001 a 2008), Miki diz acreditar em uma "polícia em que os direitos humanos prevaleçam".
"Tenho o prazer de comandar uma instituição que nunca cometeu um crime contra a população, apesar de trabalhar em situações de crise", afirmou, em referência à Força Nacional de Segurança, criada em 2004 para atender situações emergenciais nos Estados.

Homicídios

Relatório lançado pela ONU em 2014 apontou que 10% dos homicídios do mundo são cometidos no Brasil e que o país concentra 21 das 50 cidades mais letais. Foram 53.240 vítimas de homicídios dolosos no país naquele ano - uma pessoa assassinada a cada dez minutos -, e o governo federal até hoje não tem um diagnóstico preciso sobre as causas desse fenômeno.
Esse é o motivo, afirma Miki, pelo qual o chamado Pacto Nacional de Redução de Homicídios, promessa de campanha de Dilma em 2014, ainda está nos primeiros passos.
A ideia, que começou a ser discutida no Ministério da Justiça em dezembro de 2014, era buscar uma meta de redução de 5% nos homicídios por ano, com foco nos 81 municípios mais violentos, novas campanhas de desarmamento, entre outras ações.
Image copyrightTania Rego Agencia Brasil
Image captionONG Rio de Paz organizou, em 2012, protesto contra o alto índice de homicídios no Brasil; lençol com 500 mil grãos de feijão simbolizou número aproximado de pessoas assassinadas no país em dez anos.
A suposta lentidão vem sendo alvo de críticas de especialistas do setor.
"De qual dificuldade padece o Ministério da Justiça para justificar sua incapacidade em liderar um movimento nacional em prol da vida?", questionaram, em artigo recente, Samira Bueno e Humberto Viana, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec/Ucam), fez coro em outro texto recente: "Infelizmente praticamente nada aconteceu. Para além de atividades técnicas pontuais, o governo patina e deixa dúvidas: será que a crise política inviabilizou mesmo o plano ou será que o governo federal jamais teve, de fato, coragem para assumir e cobrar dos governadores compromissos efetivos para modernizar a segurança pública e reduzir a violência?"
A secretária nacional de Segurança diz que o governo está trabalhando no pacto e que há inquietação no meio acadêmico pois "as ações são imperceptíveis porque são diagnósticos". "São coisas importantes que não temos no Brasil. Você não tem um estudo da motivação do crime de homicídio até hoje no país", afirmou.
"Nosso menor problema é o anúncio (oficial do pacto, que ainda não ocorreu). O maior problema é sabermos exatamente onde agir para atingir a meta", disse a secretária.
Segundo ela, também já houve liberação de recursos para criação de centros integrados de controle, nos moldes dos que funcionaram na Copa do Mundo, em Goiás e Santa Catarina. "E estamos com pesquisadores no Nordeste fazendo microdiagnósticos nos 34 municípios mais violentos, para saber quais as intervenções além das policiais devem ser feitas."

Qualidade dos dados

Outra iniciativa federal em segurança sob questionamento é o Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública), base criada em 2012 para integrar informações e subsidiar políticas em segurança.
Em 2011, quando o sistema estava em elaboração, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, chegou a afirmar que o Estado que não informasse suas ocorrências policiais sofreria corte nos repasses de verbas da União para segurança.
Especialistas citam, por exemplo, que o sistema não apresenta dados confiáveis, e que houve erros graves - como a omissão de 3 mil homicídios - no relatório mais recente.
Image copyrightReuters
Image captionHomem segura arma no Rio ao lado de cartaz sobre campanha de desarmamento; pesquisa revelou sociedade dividida sobre como lidar com crimes e criminosos.
"O sistema funciona, o que falta é o Estado alimentar corretamente. Quem alimenta (o sistema) não é o governo federal", afirmou Miki.
Sobre a padronização ainda insuficiente dos dados, a secretária disse lamentar a não aprovação, pelo Congresso, da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 33, que daria ao governo federal o poder de organizar os registros criminais no país.
"Já foi estimulada (a padronização dos dados), mas o Estado é autônomo. Tenho Estados no Brasil que registram ocorrências, e não vítimas. Não tenho como obrigá-los. Mesmo assim o Sinesp já produziu muito, temos mapas de criminalidade e o Sinesp Cidadão é um dos aplicativos de melhor avaliação (...), mas a qualidade dos dados depende da qualidade do registro dos Estados."

Marca do governo

Promessas do governo Dilma em segurança acabaram sendo reformuladas ou ainda estão incompletas - a intenção anunciada em 2010 de construir 2.800 postos comunitários de segurança inspirados nas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) do Rio, por exemplo, acabou não saindo do papel.
"Percebemos que a construção nesse número era inviável, porque iríamos retirar da circulação da rua aproximadamente um terço de todo o efetivo de policiais do país", disse Cardozo em entrevista à Folha de S. Paulo em 2012.
No ano passado, a BBC Brasil mostrou que o projeto federal dos chamados "ônibus do crack", iniciativa que recebeu parte dos recursos originalmente destinados aos postos comunitários, estava prejudicado: prefeituras receberam os micro-ônibus para apoiar o combate ao tráfico e ao uso do crack, mas, por atraso em licitação, uma parte dos veículos chegou sem câmeras destinadas a monitorar as cracolândias.
Image copyrightAbr
Image captionMinistro José Eduardo Cardozo em micro-ônibus entregue pelo governo para combate ao uso e tráfico de crack; projeto enfrenta problemas em licitação.
Para a secretária nacional de Segurança, são questões pontuais que não comprometem os resultados gerais do Planalto no setor.
"Aí (parece que) está tudo errado, o que não é verdade. A grande marca é a integração. Fizemos grandes eventos, e essa é a nossa competência", disse.
Miki afirma ser preciso deixar "muito claro" que a competência federal em segurança pública é a "indução da política".
"Capacitação, equipamentos para melhorar as condições do profissional na ponta e integração das polícias. Os grandes eventos nos mostram isso. As integrações têm funcionado. E até não termos a mudança constitucional necessária para que a participação federal seja mais ampla, a grande marca será a integração."

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Patrulhas anti-imigrantes tomam as ruas de países nórdicos

Foto: Página dos Soldados de Odin no Facebook
Image captionPatrulhas andam pelas ruas de países nórdicos usando roupas pretas (Foto: Página dos Soldados de Odin no Facebook)
Patrulhas urbanas anti-imigrantes vêm emergindo nas ruas da Finlândia, da Noruega e mais recentemente da Dinamarca, em reação ao fluxo recorde de refugiados que chegam aos países nórdicos. São os chamados Soldados de Odin, que acusam os refugiados de provocar um aumento da criminalidade e afirmam ter a missão de "proteger a população" contra os "intrusos islâmicos".
Na mitologia nórdica, Odin é o deus da sabedoria e da guerra. Os "soldados" caminham pelas ruas com jaquetas pretas, decoradas com a estampa de um capacete viking. Vão desarmados, mas refletem a tensão social gerada pela entrada maciça de refugiados na região. E começam a conquistar adeptos também na Suécia e em outros países do norte da Europa, como a Alemanha.
"Detectamos a movimentação de simpatizantes do grupo na Suécia há poucas semanas", disse à BBC Brasil o oficial Mats Grundström, da unidade de inteligência da polícia sueca. "Nenhum incidente foi registrado ainda, mas estamos de olho neles."
Os Soldados de Odin dizem querer ser os olhos e ouvidos da polícia. Para os críticos, porém, são justiceiros xenófobos.
"Queremos acabar com a criminalidade que vemos hoje em nosso país, e que a polícia é incapaz de enfrentar", disse um porta-voz norueguês dos patrulheiros, que marcharam recentemente pelas ruas de diversas cidades da Noruega.
"Drogas estão sendo vendidas, mulheres estão sendo tocadas, há ataques e violência", acusou.

Suspeita neonazista

O grupo surgiu no fim do ano passado na Finlândia, onde é suspeito de manter vínculos com neonazistas. Na Noruega, a polícia afirma que alguns membros do grupo têm ligações com o crime. Nas mídias sociais, um patrulheiro norueguês publicou fotos em que aparece empunhando armas automáticas e bandeiras da Noruega.
"Migrantes não são bem-vindos", lê-se nas faixas carregadas pelos Soldados de Odin. Até o momento, nenhuma denúncia de agressão a refugiados foi feita contra os patrulheiros.
Foto: Página dos Soldados de Odin no FacebookImage copyright
Image captionPatrulha faz manifestações hostis para receber refugiados (Foto: Página dos Soldados de Odin no Facebook)
A estimativa é de que o grupo reúna cerca de 500 integrantes na Finlândia - mas a página dos Soldados de Odin no Facebook tem mais de 32 mil likes, além de vários comentários racistas e de apoio ao grupo, enviados por internautas de países como Áustria, Austrália e Canadá.
Ativistas antirracismo também se mobilizam: durante ato na cidade finlandesa de Tammerfors, manifestantes fantasiados de palhaços dançaram em torno dos Soldados de Odin (Soldiers of Odin, no nome original em inglês), a quem chamavam de "LOLdiers of Odin" - uma referência à sigla inglesa LOL ("laughing out loud", que em português pode ser traduzida como "rindo muito").
Na cidade norueguesa de Tønsberg, residentes rechaçaram os patrulheiros afirmando que não precisavam de proteção.
Os governos nórdicos têm expressado sua condenação à atuação das patrulhas urbanas.
Na Noruega a temperatura política subiu nos últimos dias, quando um deputado do Partido Progressista - a força de extrema direita que compõe a coalizão de governo com o Partido Conservador - elogiou a atuação dos patrulheiros.
Foto: Página dos Soldados de Odin no Facebook
Image captionDeputado foi criticado após manifestar simpatia pelo grupo xenófobo (Foto: Página dos Soldados de Odin no Facebook)
"É claro que não damos apoio ilimitado aos Soldados de Odin. Mas há tempos enfrentamos uma situação nas ruas que ninguém deseja, com crimes sendo cometidos e outros atos indesejáveis, e a polícia norueguesa não possui recursos para fazer seu trabalho. Portanto, achamos que qualquer cidadão que queira contribuir para reduzir a insegurança e o crime deve ser saudado", disse o deputado Jan Arlid Ellingsen, durante um debate na rádio norueguesa.
A primeira-ministra norueguesa, Erna Solberg, usou o Twitter para se distanciar rapidamente dos comentários do deputado.
"Os Soldados de Odin não têm lugar na tarefa de manter a segurança nas ruas. Valores perigosos. As palavras de Ellingsen não representam o governo", escreveu Solberg em sua conta.
Outros integrantes do Partido Progressista também rechaçaram os comentários do deputado, incluindo a líder do partido e ministra das Finanças, Siv Jensen.
O Partido Socialista de Esquerda foi além e exigiu que o governo norueguês determine a legalidade ou não das patrulhas dos Soldados de Odin.

Constituição

Foto: Página dos Soldados de Odin no Facebook
Image captionPara a polícia sueca 'não é ilegal caminhar em grupos' pelas ruas (Foto: Página dos Soldados de Odin no Facebook)
Na Finlândia, a polícia diz que a Constituição garante aos cidadãos a liberdade de movimento e que não há amparo legal para proibir as patrulhas urbanas.
"Isso não dá a nenhum grupo o direito de interferir na liberdade de movimento dos demais cidadãos", destacou na emissora finlandesa Yle o comandante da polícia nacional, Seppe Kolehmainen. "A polícia acompanha a situação e estará pronta para intervir diante de eventuais ações ilegais".
A polícia sueca tem a mesma visão.
"Não é ilegal caminhar em grupos, desde que esses grupos não cometam nenhum ato ilegal", diz o oficial Mats Grundström.
Mas o aumento do ativismo xenófobo preocupa: a agência de inteligência norueguesa (PST) adverte que a ameaça representada por grupos de extrema direita vem crescendo na Noruega.
Ao contrário da Suécia, a Finlândia, a Noruega e a Dinamarca não têm tradição de receber grandes números de refugiados. Em 2015, 32 mil migrantes chegaram à Finlândia - número quase dez vezes maior do que o registrado no ano anterior, em um país de 5,4 milhões de habitantes que há três anos vive uma recessão econômica.
Foto: Página dos Soldados de Odin no FacebookImage copyright
Image captionMembros das patrulhas usam agasalhos pretos com este símbolo (Foto: Página dos Soldados de Odin no Facebook)
A Noruega também recebeu um número recorde de 31 mil refugiados. A Dinamarca registrou 20 mil pedidos de refúgio e chegou a aprovar uma controversa lei que permite o confisco de bens de refugiados para ajudar a cobrir suas despesas. Na Suécia, chegaram 163 mil solicitantes de refúgio - a maior taxa per capita de recepção de migrantes registrada na Europa. Todos os países tentam agora fechar as portas em um continente dividido diante da magnitude do êxodo dos desesperados em fuga.
Os Soldados de Odin crescem em meio a um clima de medo e desconfiança que se forma entre determinadas parcelas da população e que turbina os índices de popularidade dos partidos anti-imigração.
A polarização foi acentuada a partir de notícias de roubos e atos de agressão sexual supostamente praticados por imigrantes na capital finlandesa durante a celebração do Ano Novo, além de acusações de que a polícia sueca ocultou denúncias sobre incidentes similares na capital, Estocolmo - e que teriam se reproduzido em Colônia e outras cidades da Alemanha.
Entre outros incidentes mais recentes, uma assistente social de 22 anos de idade foi morta a facadas por um refugiado na Suécia, quando tentava apartar uma briga em um abrigo para imigrantes menores de idade.
Mas muitos argumentam que se trata de casos isolados por parte de determinados grupos, enquanto alertam para o perigo de uma onda indiscriminada de ódio aos imigrantes.
E os diversos casos de incêndios suspeitos e ataques contra centros de refugiados, vistos nos países nórdicos, são sinal de que os imigrantes também estão com medo.