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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Oito lições de combate à corrupção que a Dinamarca pode dar ao Brasil

(Foto: Flávia Milhorance/BBC Brasil)Image copyrightFlavia Milhorance l BBC Brasil
Image captionDinamarca lidera ranking de países menos corruptos do mundo
A Dinamarca colhe hoje os frutos de mais de 350 anos de empenho contra a corrupção no setor público e privado e, mais uma vez, figura no topo do ranking de 168 países da ONG Transparência Internacional, o principal indicador global de corrupção.
Desde que o índice foi criado, em 1995, o país está nas primeiras posições - em que estão as nações vistas como menos corruptas. Nos últimos cinco anos, só não esteve no primeiro lugar em 2011, que ficou com a Nova Zelândia. Esse é o segundo ano consecutivo em que está sozinha no topo.
O Brasil foi um dos países que registrou a maior queda no ranking neste ano: caiu sete posições, para o 76º lugar. A ONG liga a queda ao escândalo da Petrobras.
O Índice de Percepção de Corrupção é baseado em entrevistas com especialistas - em geral, membros de instituições internacionais como bancos e fóruns globais - que avaliam a corrupção no setor público de cada país.
Na raiz do bom desempenho dinamarquês estão iniciativas de meados do século 17, quando a Dinamarca perdia parte de seu reinado para a Suécia e via que era preciso ter uma administração mais eficiente para coletar impostos e financiar batalhas em curso.
Numa época em que a nobreza gozava de vários privilégios, o rei Frederik 3º proibiu que se recebessem ou oferecessem propinas e presentes, sob pena até de morte. E instituiu regras para contratar servidores públicos com base em mérito, não no título. A partir de então, novas medidas foram sendo instituídas período a período.
Peter Varga, coordenador regional da Transparência Internacional para Europa e Ásia Central, alerta, entretanto, que "países que estão no topo do ranking naturalmente não estão livres de corrupção", pondera
Casos envolvendo empresas e políticos vez ou outra ganham destaque na Dinamarca. Há dois anos, a empresa dinamarquesa Maersk foi apontada na Operação Lava Jato como possível autora de pagamento de propinas a ex-executivos da Petrobras. E a falta de controle nos financiamentos de campanha é bastante criticada.
"Entretanto, neles isto é uma exceção, não a regra", complementa o representante da Transparência Internacional.
Embora não esteja imune ao problema, a Dinamarca traz alguns bons exemplos que podem servir de inspiração para se combater a corrupção em países como o Brasil. Confira:
(Foto: Flávia Milhorance/BBC Brasil)Image copyrightFlavia Milhorance l BBC Brasil
Image captionPolítico Peder Udengaard vai embora a pé após conversa com a BBC Brasil

1) Menos regalias para políticos

O político Peder Udengaard é membro reeleito do conselho municipal (o equivalente a um vereador) de Aarhus, segunda maior cidade da Dinamarca, com cerca de 300 mil habitantes. Vive numa zona de classe média no centro e não possui carro, por isso vai a pé ao trabalho. Recebe um salário de 10 mil coroas dinamarquesas (R$ 6 mil) para horário parcial, complementados com atividades na direção de uma orquestra.
O único benefício que recebe é um cartão para táxi, que só pode ser usado quando participa de eventos oficiais. A entrevista concedida à BBC Brasil na prefeitura, por exemplo, não estava nesta lista. Duas vezes ao ano, a prefeitura promove eventos fora da cidade e, aí sim, pode-se gastar com deslocamento e alimentação. Presentes precisam ser tornados públicos e repassados a entidades civis.
"Essas regras independem do cargo, pode ser do mais baixo ao mais alto", explica Udengaard. "Se eu tivesse filhos, iriam para a escola pública; encontro meu eleitorado no supermercado, na rua, no banco. Não tenho mais benefícios do que qualquer cidadão. Se quisesse enriquecer ou ter privilégios, não seria político", completa.
Nos últimos anos, o primeiro-ministro Lars Løkke Rasmussen foi acusado em algumas ocasiões de ter usado dinheiro público para pagar contas em restaurantes, táxis, aviões, hotéis e até roupas em cargos como prefeito, ministro e presidente da organização Global Green Growth Institute (GGGI), que recebe recursos do governo.
Confirmaram-se roupas pagas pelo seu partido, Venstre, e passagens pela GGGI, episódios duramente criticados.
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Image captionPeder Udengaard tem mandato, mas mantém uma vida sem regalias

2) Pouco espaço para indicar cargos

Tentar beneficiar-se do setor público não é tarefa fácil na Dinamarca. Um dos motivos é que, quando o político é eleito, a equipe que trabalhará com ele é a mesma da gestão anterior. Além disso, o profissional que não reportar um ato ilícito é demitido.
"Receber incentivos econômicos seria difícil, porque os funcionários não estão interessados em acobertá-los", afirma Peder Udengaard, garantindo nunca ter sido informado de algum caso ilícito na prefeitura de Aarhus.
"Regras claras sobre conflitos de interesse, códigos de ética e declaração patrimonial são muito importantes", comenta Peter Varga, destacando que elas geralmente são consideradas eficientes em países no topo dos rankings de corrupção, mas ressaltando que mesmo na Dinamarca a tentação de se aceitar propinas ou exercer influência indevida é geralmente mais forte quanto mais perto se está do centro tomador de decisões políticas.
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Image captionNa Dinamarca, político eleito precisa trabalhar com os mesmos funcionários da gestão anterior

3) Transparência ampla

A Dinamarca também é considerada a nação mais transparente no ranking "2016 Best Countries" ("Melhores países 2016"), da Universidade da Pensilvânia, dos Estados Unidos.
Os sites dos governos, de todas as instâncias, costumam ser bem munidos de dados sobre gastos de políticos, salários, investimentos por áreas etc. E qualquer cidadão pode requerer informações que não estejam lá.
No Brasil, especialistas concordam que a transparência vem avançando. Fernanda Odilla de Figueiredo, pesquisadora sobre corrupção do Brazil Institute no King's College, de Londres, elogia a Lei de Acesso à Informação e os portais de transparência, mas cobra acesso irrestrito:
"Em 2013, informações sobre viagens internacionais do presidente e do vice-presidente da República foram reclassificadas e só poderão ser acessadas depois que eles deixarem o poder, e no ano passado o governo de São Paulo decretou sigilo de determinados dados", critica.
(Foto: Flávia Milhorance/BBC Brasil)Image copyrightFlavia Milhorance l BBC Brasil
Image captionTransparência e polícia valorizada ajudam país a obter status de "mais honesto"

4) Polícia confiável e preparada

Raramente, casos de corrupção envolvem a polícia dinamarquesa. A confiança na instituição é considerada muito alta, segundo o relatório 2015-2016 de competitividade global do Fórum Econômico Mundial.
"A polícia goza de alto nível de confiança. Ser um policial geralmente é considerado uma posição relativamente de status. Isto faz jovens considerarem a carreira", acrescenta o especialista em segurança, Adam Diderichsen, professor da Universidade de Aalborg.
Diderichsen também explica que boas condições de trabalho agregam à qualidade do serviço. Após terminar o ensino médio, policiais recebem pelo menos dois anos de treinamento.
A cultura policial dinamarquesa dá ênfase a meios não coercitivos: eles usam armas, mas estão menos propensos a empregá-las do que em países fora da Escandinávia. Em geral, segundo o especialista, recebem um "bom salário de classe média, especialmente se for levado em conta a generosa aposentadoria".

5) Baixa impunidade

O código criminal da Dinamarca proíbe propina ativa ou passiva, abuso de poder público, peculato, fraude, lavagem de dinheiro e suborno.
Em 2013, o Parlamento adotou emendas para fortalecer a prevenção, investigação e indiciamento de crimes econômicos. As penas hoje vão de multa a prisão de seis anos. Elas não são consideradas tão rígidas. Mesmo assim, são aplicadas e cumpridas.
Para a Transparência Internacional, o motivo são as instituições fortes e independentes de Justiça. Já segundo o especialista em corrupção Gert Tinggaard Svendsen, professor da Universidade de Aarhus, há mais do que isso.
"As leis não são tão duras, o que é duro é o mecanismo de punição. A tolerância à ilegalidade na Dinamarca é baixíssima não só com relação às instituições, mas até com indivíduos do convívio que infringem normas das mais simples", diz.
(Foto: Flavia Milhorance/BBC Brasil)Image copyrightFlavia Milhorance l BBC Brasil
Image captionVocê deixaria um carrinho (com um bebê) sozinho do lado de fora de uma loja? Na Dinamarca é comum

6) Confiança social

Na Dinamarca, é comum alugar um livro da biblioteca sem o intermédio de um funcionário. Em alguns estabelecimentos, pode-se pegar o item, por exemplo uma fruta, e deixar o dinheiro.
Ou, mais surpreendente, famílias não hesitam em deixar seus filhos num carrinho de bebê do lado de fora de um restaurante. Esses pontos, segundo Gert Tinggaard Svendsen, também autor do livro Trust, têm algo em comum: a confiança.
"A confiança social traz regras informais ao jogo. São regras não escritas, entre pessoas. A confiança é a palavra-chave da autoregulação", explica Tinggaard, que pesquisou em 86 países se as pessoas confiavam umas das outras. Na Dinamarca, mais de 70% disseram que sim. No Brasil, apenas 10%.
Segundo ele, os dinamarqueses historicamente passaram a confiar nos indivíduos e, além disso, em suas instituições. Para a ONG, a confiança social ajuda a prevenir a corrupção, pois torna o desvio à norma um tabu. Por outro lado, quanto maior a corrupção, menor a confiança da população.
(Foto: Divulgação/niversidade de Aarhus)Image copyrightUniversidade de Aarhus
Image captionTribunal de Copenhague onde ocorria a maior parte dos julgamentos iniciados no século 19

7) Ouvidoria forte

A Ouvidoria Parlamentar é um órgão que emprega cem funcionários e recebe por ano cinco mil reclamações contra o governo. Destas, pelo menos 50% resultam em críticas ou recomendações. Mais do que apenas notificações, a instituição tem poder de promover mudanças das mais diversas.
"Se outros países quisessem aprender com a Dinamarca, eles deveriam, por exemplo, ter um escritório parlamentar de ouvidoria com uma auditoria independente para ajudar a controlar o Legislativo e Executivo", pontua Peter Varga, da Transparência Internacional.

8) Empenho constante contra a corrupção

O combate à corrupção na Dinamarca começou no século 17, mas sofreu um aumento no século 19, após uma crise econômica. Para controlar o problema, foi instaurada a tolerância zero na administração real. Segundo a professora da Universidade de Aarhus, Mette Frisk Jensen, pesquisadora do tema, os níveis de corrupção são baixos desde então.
Para Fernanda Odilla de Figueiredo, a experiência da Dinamarca nos ensina que o combate à corrupção não é resolvido de uma só vez. Trata-se de um processo longo, em que é preciso estar sempre vigilante.

"O maior mérito da Dinamarca não é ser o primeiro lugar do ranking, mas se manter no topo por tanto tempo. Isso significa que o Brasil precisa não apenas melhorar o combate à corrupção, como encontrar uma forma de fazer isso de forma estável e consistente."
Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160126_dinamarca_corrupcao_fm_ab

Por que o Brasil não segue outros países que desaconselham gravidez por risco de microcefalia

(Foto: Thinkstock)Image copyrightThinkstock
Image captionAlguns países da América Latina recomendaram adiar gravidez, mas Brasil refuta adotar medida
O Brasil é o país onde o vínculo entre a epidemia de zika e o nascimento de bebês com microcefalia foi identificado. São, segundo o último boletim divulgado pelo Ministério da Saúde, 3.448 casos sendo investigados e 270 confirmados de microcefalia em bebês.
O governo brasileiro, porém, tem adotado uma postura diferente da de outros países da América Latina e prefere não recomendar às mulheres que evitem engravidar.
Colômbia, El Salvador e Jamaica já fizeram essa recomendação. Segundo seus governos, é melhor que sejam adiados os planos de gestação até que haja maior clareza sobre os riscos da zika.
Mas, por que o Brasil não faz a mesma sugestão? Especialistas ouvidos pela BBC Brasil apontam fatores históricos, econômicos, políticos e legais por trás dessa relutância.
Autor de Contesting Epidemics: How Brazil outpaced the USA in its Policy Response ("Contestando epidemias: como o Brasil ultrapassou os EUA em suas políticas públicas", em tradução livre), Eduardo Gomez afirma que há diversos motivos para a decisão.
Professor do King's College, de Londres, ele diz que o país se abstém de emitir a recomendação, em primeiro lugar, porque historicamente os valores da sociedade brasileira são incompatíveis com esse tipo de solução.
"Desde 1988 há liberdade à saúde e respeito aos direitos humanos. Isso está escrito na Constituição. Qualquer coisa que vá contra isso é visto como antidemocrático e pode causar sérios problemas políticos ou sociais a qualquer um que recomendar (adiar a gravidez)", avalia.
Em novembro, o diretor do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch, chegou a aconselhar às mulheres não engravidar, mas o ministério emitiu nota desmentindo que essa fosse a recomendação oficial.
(Foto: AFP)Image copyrightAFP
Image captionResposta do governo a efeitos de epidemia causada pelo Aedes aegypti tem provocado debate
Gomez ressalta que a recomendação demandaria políticas de apoio, como a disponibilização de congelamento de óvulos, o que acarretaria em mais custos. "Isso seria muito difícil em meio à recessão econômica".
Nesse contexto, continua, "a epidemia de zika seria um catalisador para problemas já existentes, como a falta de verbas para o Sistema Único de Saúde (SUS)".
O especialista pondera ainda que a recomendação geraria uma resposta hostil por parte da sociedade e traria consequências políticas para o governo.
"Aumentaria ainda mais a hostilidade social ao governo (…) Dilma não quer mais isso, especialmente nesse momento de ameaça de impeachment."

Lacuna de esclarecimentos

O porta-voz da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Genebra, Christian Lindmeier, afirma que a organização e o Brasil não podem se comprometer com uma recomendação desse tipo porque a relação entre a zika e a microcefalia ainda não está completamente esclarecida.
"Pela evidência que temos em mãos, existe a sugestão de uma associação entre zika e microcefalia, mas há muitas coisas que ainda não foram estabelecidas e que precisamos saber. A microcefalia pode ser causada por impactos ambientais, metais pesados, herbicidas, pesticidas, síndromes genéticas, infecções, álcool, drogas, vacinas. E esses podem ser cofatores na má-formação, pois tivemos surtos de zika anteriormente, mas não tivemos microcefalia."
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Image captionPara especialista, Brasil deveria aumentar distribuição de camisinhas neste momento
Procurado pela BBC Brasil, o Ministério da Saúde afirmou que "a gravidez é uma decisão pessoal" e reiterou que não está promovendo políticas de controle de natalidade devido aos casos de microcefalia.
"Não existe, nesse momento, recomendação para aumento de distribuição de camisinhas – ou contraceptivos – relacionados ao vírus zika", informou em comunicado.
Para Gomez, que escreveu diversos estudos sobre o HIV (vírus causador da Aids) no Brasil, a distribuição de camisinhas é importante para garantir mais proteção a mulheres que queiram adiar a gravidez.

Incerteza

O médico e biomatemático Antoine Flahault, diretor do Instituto de Saúde Global da Universidade de Genebra, diz acreditar que a ausência de evidências contundentes servem de razão para que a OMS não faça a recomendação.
Segundo Flahault, a incerteza é um argumento que funciona "para os dois lados": enquanto alimenta a cautela dos países latino-americanos, serve de desculpa para a indefinição no caso do Brasil e da OMS.
"Os vínculos entre a microcefalia e a zika ainda não são considerados suficientes por alguns especialistas da organização. (Mas) eu entendo completamente se alguns países preferem tomar medidas fortes e pedir às mulheres que posterguem a gravidez."

Previsões da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) divulgadas nesta semana apontam que o zika vírus deve se espalhar por todo o continente, ficando fora apenas de Chile e Canadá, onde o Aedes aegypti não está presente.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160126_zika_adiamento_gravidez_mw_ab

sábado, 23 de janeiro de 2016

As doenças raras que deixaram de ser um mistério graças a projeto que desvenda genomas


Foto: GOSH (Hospital Infantil Great Ormond Street)Image copyrightGOSH
Image captionDepois de quatro anos a doença misteriosa de Georgia foi identificada graças ao Projeto 100 mil Genomas

Georgia Walburn-Green é um mistério para os médicos britânicos desde que nasceu, há quatro anos.
Ela tem lesões nos olhos e nos rins além de problemas de fala, mas os médicos não conseguiam explicar qual seria a causa de todos estes problemas.
Mas graças ao Projeto 100 mil Genomas, do governo britânico, foi possível identificar a misteriosa doença que afetava Georgia - era causada por uma anomalia específica em um gene.
Os pais de Georgia, Amanda e Matt Walburn-Green, afirmam que o dia em que finalmente receberam um diagnóstico foi o mais importante de suas vidas.
Os dois contaram à BBC que, quando a criança nasceu, tiveram apenas 20 minutos para "abraçá-la sem preocupações" antes que seu mundo "se transformasse de totalmente feliz para totalmente terrível".
Inicialmente os médicos pensaram que Georgia tinha água no cérebro, por causa do tamanho de sua cabeça.
Os médicos liberaram a criança provisoriamente, mas sabiam que algo não estava certo e não conseguiam identificar o que era.
Este foi o começo de mais de quatro anos de incertezas para a família.
"Foi muito difícil. Aceitei que ela estava doente. Você vai ao hospital e, ainda que possa ser horrível, sabe o que está passando e enfrenta. Nós não sabíamos se ela ia andar ou falar ou se teria uma expectativa de vida normal", disse Amanda.
"Foi uma montanha-russa não saber o que vai acontecer depois, pois você está nesta jornada ao desconhecido e lentamente vai encontrando os problemas."

Outro filho


Foto: GOSH (Hospital Infantil Great Ormond Street)Image copyrightGOSH
Image captionPara os pais de Georgia, finalmente ter um diagnóstico foi o 'dia mais importante de suas vidas' (Foto: GOSH (Hospital Infantil Great Ormond Street)

Os pais de Georgia afirmam que ela é uma criança feliz de quatro anos de idade, sociável, que ama os animais e que tem o dom de "conquistar as pessoas".
Mas ela não cresceu tão rápido como as outras crianças, tinha nódulos nos olhos que afetavam sua visão e seus rins não funcionam de forma adequada.
"E não sabemos se ela será capaz de falar. Ela nos entende e tenta desesperadamente (se comunicar), mas não consegue fazer os sons que quer", acrescentou a mãe de Georgia.
Os médicos suspeitavam que os problemas de Georgia eram causados por erros em seu DNA.
Por isso, Amanda e Matt Walburn-Green não queriam arriscar e ter outro filho que poderia nascer com o mesmo problema.

Projeto


Foto: GOSH (Hospital Infantil Great Ormond Street)Image copyrightGOSH
Image captionInicialmente, os médicos pensaram que Georgia tinha água no cérebro, por causa do tamanho de sua cabeça

O Projeto 100 mil Genomas - criado pelo governo da Grã-Bretanha - visa entender a genética do câncer e de doenças raras como a que afeta Georgia.
Os cientistas do Hospital Infantil Great Ormond Street realizaram o trabalho colossal de identificar a diferença entre todos os três bilhões de pares de bases do DNA de cada membro da família Walburn-Green - Georgia, Amanda e Matt -, para descobrir o que havia de errado.
Pouco antes do Natal os médicos disseram à família que tinham identificado uma anomalia em um gene chamado de KDM5b.
Apesar de esta descoberta não mudar o tratamento de Georgia, ela oferece esperanças da criação de uma terapia no futuro.
E também significa uma outra boa notícia para a família Walburn-Green: a mutação de Georgia apareceu de forma espontânea, não foi herdada dos pais e, por isso, eles poderão ter outro filho.

Novos tratamentos


Foto: GOSH (Hospital Infantil Great Ormond Street)Image copyrightGOSH
Image captionJessica foi outra criança beneficiada graças ao projeto /Foto: GOSH (Hospital Infantil Great Ormond Street)

Outras crianças estão se beneficiando do Projeto 100 mil Genomas, como é o caso de Jessica.
Como Georgia, Jessica foi submetida a vários exames, mas ninguém descobria qual era o problema da menina - que, entre outras sintomas, sofria de ataques epiléticos.
Ao analisar o DNA de Jessica e de seus pais, os médicos descobriram um erro, que causava a Síndrome de Deficiência de GLUT1.
A menina não consegue transportar açúcar para as células cerebrais, o que as deixa sem energia.
Uma dieta rica em gorduras deve dar ao cérebro de Jessica uma fonte alternativa de energia diminuindo a necessidade dos medicamentos para epilepsia.
"É realmente emocionante ver os resultados aparecendo e a diferença que podem fazer para estas famílias", disse a professora Lyn Chitty, que lidera o projeto no Hospital Great Ormond Street.
"Isto aumenta a confiança no projeto e mostra que a aplicação do sequenciamento de genoma pode cumprir com a promessa de mudar a forma de diagnosticar e tratar de pacientes no futuro", acrescentou.
E o projeto não se restringe apenas a crianças. Em fevereiro de 2015, foram diagnosticados os primeiros adultos também.